Archive for dezembro, 2010

Olha o Zamba aí de novo [4 anos de pura ralação]

Recordo-me bem do Festival de Inverno de Domingos Martins de 2006. Fazia 1 ano que cursava Letras na UFES, tinha acabado de largar um emprego de Aux. de Almoxarifado numa empresa de ônibus, e, na cabeça, milhares de crises de um jovem que tinha crescido praticamente dentro de uma igreja evangélica.

A primeira coisa que fiz ao chegar na cidade foi comprar uma lata de cerveja. Ao meu lado, apareceram amigos de longa datas, Gabriel Moreira e Reuel. A prosa iniciou bem cedo. Dali, partimos para o Colégio que hospeda a todos os pobres estudantes de música do ES. Foi neste ambiente que surgiu tudo o que hoje conhecemos como Zamba Bem.

1º apresentação da banda, na antiga Livraria Nobel da praia de camburi...

O Léo Baptista, baterista, era conhecido do Gabriel Moreira. Viu-me com o cavaco na mão e já não pensou duas vezes: fez o convite para eu intregar o projeto dele com Bruno Castello, vocalista, de fazer samba e música brasileira sob fortes influências da recém surgida Orquestra Imperial. Foi lá também que conheci meu grande amigo Marcos Ramos, que  eu convidei logo depois para integrar o projeto conosco e que, durante alguns meses, tocou teclado com a gente. É dele a indicação do nome da banda, forma de homenagear o grande Markú Ribas, autor da canção “Zamba Ben”.

Já se passaram 4 anos desde aquele inverno. A banda passou por algumas formações. Thiago Mariano, Marcos Ramos, Diego Lemos, Andrey Junca, Hugo Reis, Dhel e Klainer foram alguns dos integrantes que deixaram suas marcas na pequena história do nosso grupo.

Hoje em dia escrevemos capítulos diversos dos que foram escritos nos últimos 3 anos. Não temos tanta paciência de

tocar toda semana igual tínhamos; desenvolvemos vários projetos que nos edificam enquanto seres humanos. Mas amamos a música, gostamos muito do que fazemos.; já são mais de 4 anos de pura agonia, frustrações, mas também de muita bagagem e crescimento musical amanhã no Teacher’s Pub.

Antigo Bliss Bar lotado em apresentação do Zamba...

Para vocês terem ideia; há pouco mais de 2 anos, a Jovem Pan simplesmente não deixou o Zamba Bem tocar junto com o Sergião Loroza por sermos garotos novos e colocou o “projetinho” de samba-rock do Amaro Lima e Marcelo Ribeiro - que se chamava (pasmem!!!) “Clube do Balanço” (o nome da banda era “Groove”) – para nos substituir. Mais do que isso: quem convidou o Sergião Loroza foi a gente, articulamos o cachê mais em conta com o cara e, na última hora, tiraram o leite da boca da criança.

O que fizemos? Colocamos a boca no trombone. Não deu em nada. Mas colocamos. Espalhamos e-mails pra tudo enquanto é lado.

E o que isso gera no músico: sentimento de impotência, pois o que colocamos no palco é a nossa verdade. Se me pedirem para tocar rock’n roll, frevo, dance, vou apanhar pra cacete, mas samba, swing, black music: isso é a minha verdade. Toco no Zamba porque o que expresso ali no palco é o que gosto de tocar. E o que fazem com essa sua verdade? Nada, ela pouco importa para alguns.

Não tenho nada contra Amaro Lima e Marcelo Ribeiro. São grandes músicos, bastante competentes no que fazem. No entanto, o projetinho que tinham não era uma verdade musical deles. A prova disso é que acabou faz tempo ( mas pode voltar, dependendo do que o mercado pedir…).

Agora nós, ainda que o tempo não nos permite ser assíduos, nunca abandonamos o barco. Preferimos as vezes não

único cachezinho público: Estação Porto. Valeu Alcione!!!

tocar a fazer o joguinho do sistema. Cachê de prefeitura? Só 1 vez. Governo do Estado? Nunca nos procurou para tocar em nada. Mas o nosso som, na boa, continua o mesmo (pode ser que ainda sejamos garotos, né… Jovem Pan que o diga).

A única coisa que nos motiva a sair de casa, a ensaiar, a procurar alguma coisa bacana pra colocar no palco é o amor pelo som, por estar no palco tocando. Apenas fazemos o nosso som.  É a nossa verdade.

E vamos fazer isso amanhã, no Teacher’s Pub, junto com o Kalifa. Espero que a noite seja agradável pra todos.

É isso.
Moisés N.

carnaval de Ouro Preto: até baixista já tive de ser nessa banda!!!

 

Teatro da UFES

 

(e deixo claro que não recusaria o convite do Estado, da prefeitura…Eles quase não apareceram nesses 4 anos, mas a gente aceita)

formação atual: Tércio Nascimento (baixo), Léo Baptista (bateria), Bruno Castello (voz) e Moisés Nascimento (guitarra)

Como foi…[formação agente cultura jovem]

Há dois problemas que constantemente enxergo em minhas relações com o mundo.  O primeiro é o completo isolamento que algumas pessoas parecem ter do ambiente social, seja ele qual for. O outro problema consiste exatamente no oposto: quando alguém tenta ser o outro, tenta se colocar no lugar do outro. Não é possível con-viver com nenhum dos dois. Aliás, acredito que os dois são impossíveis de acontecer efetivamente se estou lidando com sujeitos fora de um quadro clínico.

Não acredito no completo isolamento, mas sei que o contato com o outro não é nada fácil. A todo o momento vejo pessoas repetirem o velho erro de tentar se colocar no lugar do outro ou tentar fazer com que o outro “tente” ser o que elas são. É difícil. Os clichês são vários: “coloque-se no meu lugar!”, “tente imaginar pelo que passei” etc.

O outro é sempre um enigma, um terreno inabitável, haja vista não existir a menor possibilidade de se “checar” e chegar ao todo que é o “outro”. Ele é sempre uma (im) possibilidade!

Lembro de um trecho do poema de Hölderlin estudado por Heidegger:

“… Enquanto perdurar junto ao coração
a amizade, Pura, o homem pode medir-se
sem infelicidade com o divino…”

E Heidegger recorta essa parte do poema para afirmar que “Hölderlin diz, numa expressão por ele muito apreciada, ‘junto ao coração’ e não ‘no coração’. ‘Junto ao coração’ significa o que advém nessa essência do homem de ser aquele que habita, o que advém como apelo da medida junto ao coração de tal maneira que o coração se volte para essa medida”.

É na medida em que estou próximo ao outro (ou do coração do outro)  e não tentando estar dentro do outro (do coração do outro) que o mundo fica bem melhor de se viver.

A formação Agente Cultura Jovem me propiciou isto. As várias linguagens, os vários tipos de gente misturados, colocaram-me sempre junto a algum coração. E isso foi bem legal. E saboroso.

É isso.
Moisés N.