Olha o Zamba aí de novo [4 anos de pura ralação]

Recordo-me bem do Festival de Inverno de Domingos Martins de 2006. Fazia 1 ano que cursava Letras na UFES, tinha acabado de largar um emprego de Aux. de Almoxarifado numa empresa de ônibus, e, na cabeça, milhares de crises de um jovem que tinha crescido praticamente dentro de uma igreja evangélica.

A primeira coisa que fiz ao chegar na cidade foi comprar uma lata de cerveja. Ao meu lado, apareceram amigos de longa datas, Gabriel Moreira e Reuel. A prosa iniciou bem cedo. Dali, partimos para o Colégio que hospeda a todos os pobres estudantes de música do ES. Foi neste ambiente que surgiu tudo o que hoje conhecemos como Zamba Bem.

1º apresentação da banda, na antiga Livraria Nobel da praia de camburi...

O Léo Baptista, baterista, era conhecido do Gabriel Moreira. Viu-me com o cavaco na mão e já não pensou duas vezes: fez o convite para eu intregar o projeto dele com Bruno Castello, vocalista, de fazer samba e música brasileira sob fortes influências da recém surgida Orquestra Imperial. Foi lá também que conheci meu grande amigo Marcos Ramos, que  eu convidei logo depois para integrar o projeto conosco e que, durante alguns meses, tocou teclado com a gente. É dele a indicação do nome da banda, forma de homenagear o grande Markú Ribas, autor da canção “Zamba Ben”.

Já se passaram 4 anos desde aquele inverno. A banda passou por algumas formações. Thiago Mariano, Marcos Ramos, Diego Lemos, Andrey Junca, Hugo Reis, Dhel e Klainer foram alguns dos integrantes que deixaram suas marcas na pequena história do nosso grupo.

Hoje em dia escrevemos capítulos diversos dos que foram escritos nos últimos 3 anos. Não temos tanta paciência de

tocar toda semana igual tínhamos; desenvolvemos vários projetos que nos edificam enquanto seres humanos. Mas amamos a música, gostamos muito do que fazemos.; já são mais de 4 anos de pura agonia, frustrações, mas também de muita bagagem e crescimento musical amanhã no Teacher’s Pub.

Antigo Bliss Bar lotado em apresentação do Zamba...

Para vocês terem ideia; há pouco mais de 2 anos, a Jovem Pan simplesmente não deixou o Zamba Bem tocar junto com o Sergião Loroza por sermos garotos novos e colocou o “projetinho” de samba-rock do Amaro Lima e Marcelo Ribeiro - que se chamava (pasmem!!!) “Clube do Balanço” (o nome da banda era “Groove”) – para nos substituir. Mais do que isso: quem convidou o Sergião Loroza foi a gente, articulamos o cachê mais em conta com o cara e, na última hora, tiraram o leite da boca da criança.

O que fizemos? Colocamos a boca no trombone. Não deu em nada. Mas colocamos. Espalhamos e-mails pra tudo enquanto é lado.

E o que isso gera no músico: sentimento de impotência, pois o que colocamos no palco é a nossa verdade. Se me pedirem para tocar rock’n roll, frevo, dance, vou apanhar pra cacete, mas samba, swing, black music: isso é a minha verdade. Toco no Zamba porque o que expresso ali no palco é o que gosto de tocar. E o que fazem com essa sua verdade? Nada, ela pouco importa para alguns.

Não tenho nada contra Amaro Lima e Marcelo Ribeiro. São grandes músicos, bastante competentes no que fazem. No entanto, o projetinho que tinham não era uma verdade musical deles. A prova disso é que acabou faz tempo ( mas pode voltar, dependendo do que o mercado pedir…).

Agora nós, ainda que o tempo não nos permite ser assíduos, nunca abandonamos o barco. Preferimos as vezes não

único cachezinho público: Estação Porto. Valeu Alcione!!!

tocar a fazer o joguinho do sistema. Cachê de prefeitura? Só 1 vez. Governo do Estado? Nunca nos procurou para tocar em nada. Mas o nosso som, na boa, continua o mesmo (pode ser que ainda sejamos garotos, né… Jovem Pan que o diga).

A única coisa que nos motiva a sair de casa, a ensaiar, a procurar alguma coisa bacana pra colocar no palco é o amor pelo som, por estar no palco tocando. Apenas fazemos o nosso som.  É a nossa verdade.

E vamos fazer isso amanhã, no Teacher’s Pub, junto com o Kalifa. Espero que a noite seja agradável pra todos.

É isso.
Moisés N.

carnaval de Ouro Preto: até baixista já tive de ser nessa banda!!!

 

Teatro da UFES

 

(e deixo claro que não recusaria o convite do Estado, da prefeitura…Eles quase não apareceram nesses 4 anos, mas a gente aceita)

formação atual: Tércio Nascimento (baixo), Léo Baptista (bateria), Bruno Castello (voz) e Moisés Nascimento (guitarra)

Como foi…[formação agente cultura jovem]

Há dois problemas que constantemente enxergo em minhas relações com o mundo.  O primeiro é o completo isolamento que algumas pessoas parecem ter do ambiente social, seja ele qual for. O outro problema consiste exatamente no oposto: quando alguém tenta ser o outro, tenta se colocar no lugar do outro. Não é possível con-viver com nenhum dos dois. Aliás, acredito que os dois são impossíveis de acontecer efetivamente se estou lidando com sujeitos fora de um quadro clínico.

Não acredito no completo isolamento, mas sei que o contato com o outro não é nada fácil. A todo o momento vejo pessoas repetirem o velho erro de tentar se colocar no lugar do outro ou tentar fazer com que o outro “tente” ser o que elas são. É difícil. Os clichês são vários: “coloque-se no meu lugar!”, “tente imaginar pelo que passei” etc.

O outro é sempre um enigma, um terreno inabitável, haja vista não existir a menor possibilidade de se “checar” e chegar ao todo que é o “outro”. Ele é sempre uma (im) possibilidade!

Lembro de um trecho do poema de Hölderlin estudado por Heidegger:

“… Enquanto perdurar junto ao coração
a amizade, Pura, o homem pode medir-se
sem infelicidade com o divino…”

E Heidegger recorta essa parte do poema para afirmar que “Hölderlin diz, numa expressão por ele muito apreciada, ‘junto ao coração’ e não ‘no coração’. ‘Junto ao coração’ significa o que advém nessa essência do homem de ser aquele que habita, o que advém como apelo da medida junto ao coração de tal maneira que o coração se volte para essa medida”.

É na medida em que estou próximo ao outro (ou do coração do outro)  e não tentando estar dentro do outro (do coração do outro) que o mundo fica bem melhor de se viver.

A formação Agente Cultura Jovem me propiciou isto. As várias linguagens, os vários tipos de gente misturados, colocaram-me sempre junto a algum coração. E isso foi bem legal. E saboroso.

É isso.
Moisés N.

No AR edição Nº 5 da revista Graciano – Leiam!!!

 

A revista Graciano está saborosa:

A começar pelo bate-bola entre 14 grandes escritores que vivem no Espírito Santo, a revista esbanja beleza como as encontradas  nas edições anteriores: Alexandre Moraes, Saulo Ribeiro, Bernardo Coelho, Wilberth Salgueiro, Herbert Farias, Nelson Martinelli Filho (aqui citando apenas aqueles que conheço ao menos 1 poema) falam sobre o processo de criação poética, influências literárias e trabalhos que estão no prelo.

O Chá das 7 é com o já conhecido escritor Caê Guimarães, lá sabatinado por mais de 15 cronópios aflitos esteticamente.

AHh…a Valise está cheia: só levar pra casa!

Não percam. Acessem o link e desfrutem de uma boa revista literária!

http://issuu.com/revistagraciano/docs/graciano_5

É isso.
Moisés N.

Conversa com Antonio Candido pelo telefone…

Antonio Candido -”Alô..”
Moisés Nascimento -”É o mestre Antonio Candido?”
AC – “Quem é que tá me gozando?”
MN -”O mestre…não tô gozando não…aqui quem fala é Moisés Nascimento. Sua filha lhe falou do encontro latinoamericano de letras?”
AC – “sim. É que eu sempre pensei que é algum conhecido que tá me gozando. Quando me chama de mestre, eu sempre digo como Capistrano de Abreu: não sou mestre de ninguém”.
MN -”Pois então. Eu e um grupo de amigos estamos organizando o 1º encontro latinoamericano de estudantes de letras na UNB..
AC – “em brasília”.
MN – “isso. E eu sugeri o nome do senhor como homenageado do evento. E gostaria de saber se o senhor aceita a homenagem e topa ir a brasília recebê-la”.
AC -”Olha. Eu fico muito honrado com o convite. Mas eu não viajo mais. Tenho 92 anos e o médico me proibiu de viajar. Não vou nem ao Rio de Janeiro, onde tenho parentes. Eu parei de dar conferência, de escrever artigo. Portanto, acho melhor vocês homenagearem alguém que possa estar presente no evento e falar para vocês”.
MN – “Tá ok então, mestre”.
AC -”Quero que você diga aos seus companheiros que fico muito sensibilizado com o convite”.
MN -”Pode deixar que direi sim, mestre. Eu queria lhe dizer que o senhor é meu objeto de estudo, de pesquisa, na pós-graduação. Desde a graduação estudo a sua obra”.
AC - ”Eu fico agradecido [sic] porque eu sempre digo que sou professor. Minha vida como escritor, crítico [sic] é secundário. Antes de tudo, sou professor. Por isso que fico honrado, e sempre que posso vou aos encontros de estudantes, porque sou professor [sic]“
MN  - “Foi uma honra falar com o senhor, tá bom?”
AC – “Tá bom. Xau”
 
De chorar,né… enfim, falei com o Mestre pelo telefone!
É isso.
Moisés N.

sobre “experiência e pobreza”, de Walter Benjamin…[apenas um resumo]

Na antiga parábola do tesouro escondido por um velho nos seus vinhedos, Walter Benjamin busca a inspiração para afirmar que os indivíduos que sofreram o impacto da 1º guerra mundial não mais tinham capacidade para narrar experiências. Na história, o velho revela aos seus filhos que existe um tesouro enterrado na plantação de uvas, que não foi encontrado por estes numa escavação que imediatamente fizeram no terreno; somente no outono descobriram que o tesouro de que falava seu pai eram as vinhas, já que elas produziam bastante nessa estação (p. 114).

O que Benjamin afirma é que este tipo de experiências, que até então eram narradas pelos pares, pelas grandes narrativas transmitidas ao longo da história de geração a geração, não têm possibilidade de serem experimentadas, haja vista o peso negativo da que sofreram os combatentes entre 1914 e 1918. Esse trágico acontecimento retirou do indivíduo a capacidade de narrar suas experiências, pois o que lá viveram foi demasiadamente pesado para se narrar. O embate com o caos que a guerra gerou no ambiente destes que antes viviam numa harmonia fez com os indivíduos não mais se sentissem ricos em relatos, mas sim pobres, desnudados por uma realidade que agora impunham ao ser humano uma “paisagem diferente em tudo” (p. 115).

Assim, a pobreza em Benjamin é exatamente a escassez de experiência, ausência do que narrar. Para o autor, “uma nova forma de miséria surgiu com esse monstruoso desenvolvimento da técnica, sobrepondo-se ao homem” (p. 115). E nisso tece uma crítica ao que define como “reverso” daquela miséria, que são as renovações na astrologia, na ioga, na quiromancia etc., assim como a tentativa de alguns artistas de buscar em outras épocas as bases para criar suas obras – aqui ele utiliza o exemplo de Ensor –, por entender que ali não se tem um processo autêntico de criação, e sim uma “galvanização” ( p. 115).

Reconhecendo a pobreza da humanidade, Benjamin afirma que nessa caótica ambiência surge um novo conceito de barbárie, pensado de forma positiva. Para ele, a pobreza de experiência impulsiona o individuo a partir do grau zero, a enfrentar o papel em branco, construindo aos poucos sem a necessidade de olhar nem para a direita nem para a esquerda (p. 116). Citando grandes pensadores como Descartes, Einstein, Benjamin afirma que é no ambiente da pobreza, no reconhecimento da nudez, da escassez da experiência, que o ser humano busca se situar, no intuito de tirar um proveito desse ambiente de quase inexperiência.

O “b”, o “a” e o “ba” da “Morte do Autor”de Roland Barthes…

A partir de um recorte de Sarrasine de Balzac, Roland Barthes apresenta seu pensamento sobre a não presença do autor no texto escrito. Partindo de uma situação bastante inusitada, um personagem masculino castrado e disfarçado de mulher, o escritor questiona a origem da voz desta, e pergunta se podemos enquadrar Balzac naquela fala.

As intenções de Barthes com o texto são claras. Ele busca contrapor o pensamento ositivista/determinista/capitalista que vinculava ao autor todas as proposições e peculiaridades da obra literária. Para o escritor, toda a escritura, independente da época que foi concebida e das intenções de seu autor, produz este distanciamento. Assim que encerrado o trabalho, a partir do momento em que se encontra pronta a obra, “a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a escrita começa”.  Ele inclusive refuta a crítica em vigor que procurava sempre explicar a obra “do lado de quem produziu, como se, através da alegoria mais ou menos transparente da ficção, fosse sempre afinal a voz de uma só e mesma pessoa, o autor, que nos entregasse a sua ‘confidência’”.

Pensando o autor como “uma personagem moderna”, assinalando inclusive que isto foi produzido pela produção intelectual do seu tempo, Barthes apresenta um conjunto de escritores que desde tempos anteriores já “abalavam” o positivismo, produzindo obras que confrontavam a concepção de autor vigente. Do Simbolismo ao Surrealismo, apontando Mallarmé como o primeiro a prever essa concepção de “morte do autor”, ele afirma que – na obra – “é a linguagem que fala”.  

O afastamento do autor, para Barthes, modifica o olhar sobre o texto moderno, direcionando-o não mais para o passado, mas para o tempo do texto: “o scriptor moderno nasce ao mesmo tempo em que o seu texto”. O texto aqui é enxergado como uma junção de escritas diversas, não original e de multifocos. A originalidade no texto moderno está exatamente na habilidade do escritor em manipular todos esses diferentes códigos na sua escrita.

Essa “multiplicidade” de códigos, de escritas, só se completa no leitor. Para Barthes, “o verdadeiro lugar da escrita” está no leitor; é só nele que a escrita se apresenta de forma total. E a razão da “morte do autor” é exatamente esta: dar vida ao leitor, que até então não era enxergado pela crítica literária.

É isso.
Moisés N.

Marcos Ramos e Alexandre Moraes estiveram na Biblioteca Pública Estadual!!!

No último dia 26 de outubro, terça-feira passada, Marcos A. Ramos  (bolsista do PRCJ) e o Prof. Dr. (e também ensaísta e poeta) Alexandre Moraes promoveram um debate bastante interessante na Biblioteca Pública Estadual. O tema foi comum aos dois: a poesia de Casé Lontra Marques.

A bolsa de Marcos Ramos no PRCJ foi conquistada através de um projeto de pesquisa sobre a poesia de Casé. Alexandre Moraes é, desde a época da graduação, orientador e amigo de Casé Lontra Marques, além de juntos dirigirem a Editora Aves de Água.

Portanto, queridos, não tinha como dar errado a conversa entre os dois. Eu não arrisco comentar nada por aqui. Apenas digo uma coisa: quem não foi, perdeu!

Abaixo algumas fotos do Encontro.

É isso.
Moisés N.

PS: Eles prometeram divulgar os textos depois!!!

Adoraria que Dilma e Serra aprendessem com ele…

 

Amanhã é dia de eleição para a população brasileira. Ainda somos um país de política pré-moderna, onde as pessoas são obrigadas a votar, são forçadas a saírem de suas casas para decidirem o rumo da nação. Pois bem. Era de se esperar que por aqui a corrupção comeria solta, que várias pessoas lançariam o voto a “Deus dará” e que a velha oligarquia (Jader Barbalho, família Sarney, família ACM e outras tantas) perpetuasse no poder, já que ela semeia alguns grãos de arroz na boca desses que são retirados da zona de conforto do lar.

Muitos amanhã escolherão este ou aquele candidato, não por concordar com suas políticas e posturas, mas por entenderem que é o “menos pior”, o que menos prejudicou a população brasileira. É um voto medíocre, mas é o que acontecerá. Estamos diante de uma campanha política em que Dilma e Serra disputam quem dos dois possuem mais ética e moral. Ou pior: quem menos está aliado a corrupção arcaica que impera no poder público brasileira.

Acho que Nestor Canclini, no clássico livro “Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade”, de fato estava certo: Como discutir pós-modernidade na América Latina se sequer a modernidade por aqui passou direito? Ainda somos pré-modernos em vários aspectos. A política nos mostra isso.

Fernando Henrique Cardoso - ex-presidente, sociólogo e grande intelectual brasileiro -, que se afirma Ateu, nas eleições de 98 subiu no palco da Convenção da Igreja Assembléia de Deus e disse “Aleluia” no microfone. Seu colega José Serra, que se colocava como ateu na juventude, e até a pouco tempo atrás, que por vezes diz que o Estado deve ser laico, acabou de beijar uma santa num comicío em Minas Gerais. Dilma Rousseff, que também é estudiosa, militante da esquerda, inclusive sofrendo graves repressões durante a ditadura, usou até a expressão ”pela graça de Deus” na televisão.

Ora, isso demonstra apenas que nosso políticos nos tratam como idiotas, meras marionetes, pessoas que se deixam levar por meros acontecimentos. E é exatamente o que acontece. Mas a culpa não é do povo: isso só acontece porque nossos políticos nos tratam de forma infantilizada.

Como eu disse: somos pré-modernos. O país é pré-moderno. E não há, por parte de nossos políticos, vontade nenhuma de tratar isso de forma diferente.

Observem, por exemplo, o debate sobre o aborto. Independente de serem contra ou a favor, o discurso religioso não deveria imperar num debate tão caro à população brasileira. (de imediato, já digo que sou a favor do aborto).

O único problema do nosso vício pré-moderno, é que muito do que ele apreende do moderno não é o essencial para a mudança de postura. Por exemplo, poderíamos aprender com a moderna Holanda, onde os políticos não possuem salários e dedicam a função apenas os momentos de folga do trabalho. Deveríamos aprender com os modernos a não obrigar nosso povo a votar. Pois aí veríamos políticos realmente interessados em fazer uma campanha de conscientização e captação de votos, tentando ser o mais honesto possível.

Deveríamos retirar  peso religioso – tanto católico quanto evangélico, principalmente – que amortizam um estado laico. Deveríamos aprender isso com Barack Obama, 1º negro a ser presidente dos EUA, que nos brindou com o excelente vídeo abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=F2GNwXsIo_w&feature=related

Gostaria que Serra e Dilma aprendessem com ele…

É isso.
Moisés N.

Oswald de Andrade, Identidade Nacional e Moisés Nascimento no programa “Vice Verso” na 104.7

 

Imagine uma amiga sua te ligar numa terça-feira, às 10h da matina, te convidando para participar de um programa de rádio no dia seguinte? Force um pouquinho mais a sua imaginação ao saber que Oswald de Andrade, a Tropicália e o tema “Identidade Nacional” fazem parte da programação?

Foi por coisas parecidas que passei a minha noite de ontem, quarta-feira (20/10).  Jamille Ghil convidou-me a participar do programa “Vice Verso”, que rola das 20 as 21h, sempre nas quartas, na rádio Universitária FM – 104.7

A princípio, fiquei bastante inquieto. Não curto muito coisas marcadas tão em cima. Mas ao mesmo tempo, interessava-me o debate da “identidade”, já que discuto exatamente este tema no mestrado, na obra do crítico literário Antonio Candido. Bem: aceitei o convite.

Lá cheguei faltando 25 minutos para entrar no ar e, nesse instante, descobri que a Tropicália entraria no pacote. O que fiz? perguntei se poderia utilizar o PC do estúdio e lé fiquei, com fones no ouvido, esperando o show começar. De quebra, percebi que a profissão de radialista não é tão simples assim: requer esforço, habilidade e, principalmente, “poder de síntese” (coisa bastante interessante de se pedir a um estudante de letras!). E Jamille e Ítalo Galiza (que apresenta o programa junto com a Jajá) mandam muito bem. O repertório é bastante legal, os dribles aos furos que sempre acontecem são perfeitos e o entrosamento da dupla merece ser aplaudido!

A única coisa do dia de ontem que não merece aplauso sou eu. Caramba: como é difícil articular o pensamento na rádio! Eu, de fato, não sei ser sintético. E me embolei bastante nas falas.

Gostaria de utilizar este espaço para explicitar algumas coisas que disse na rádio ontem.

A ideia de Identidade Nacional, no que tange a literatura, está completamente atrelada a projeto de nação oitocentista: só se começa a discutir isso deste lado do Atlântico depois da “independência” política (com todas as aspas do mundo) da coroa portuguesa. Os escritores que fundaram a revista Niterói, entre eles Gonçalves de Magalhães, autor do marco fundador do Romantismo brasileiro: Suspiros Poéticos e Saudades, só fizeram isto por acreditarem que um país independente político e economicamente necessita de uma literatura autônoma, que o represente. Aqui inicia-se a discussão da identidade nacional na arte.

No entanto, tais ambições não saíram da mente dos jovens intelectuais. Nasceram do pensamento europeu, mais precisamente de Almeida Garrett, escritor português, que já apontava para a necessidade de nossos escritores abandonarem a paisagem “arcádica” e valerem-se da natureza, dos nativos e dos costumes brasileiros como matérias-primas da criação literária.  Daí o exotimo, a idealização o indianismo serem os principais temas do nosso Romantismo. Houve um estímulo, um direcionamento europeu para o que aconteceu na primeira metade do século XIX.

O projeto de 1922 é uma retomada da discussão de Identidade também atrelada a um projeto de nação (a data e ano são de aniversário de 100 anos da proclamação da Independência por D. Pedro I). Porém, a diferença se instala exatamente no fato dos escritores mais recentes já predisporem de um conhecimento vasto da literatura brasileira antiga, além de estarem antenados para o que estava acontecendo no mundo à época.

Oswald de Andrade, juntamente com os artistas plásticos e Villa-Lobos, são os únicos que de fato se preocuparam em trazer o novo para a arte. No caso da literatura, Oswald obrigou a crítica literária a mergulhar numa nova forma de concepção da linguagem poética, que consistia em um perfeito domínio não só da língua, mas, sobretudo, de um conhecimento de mundo, de Brasil, dos complexos percursos histórico-sociais pelos quais a vida em sociedade passou. Oswald, na década de 20, expande o conceito de poesia. Na obra dele,  sem sombra de dúvida, estamos diante  de uma literatura de invenção, ruptura clara com a tradição parnasiana-simbolista. Aqui estamos diante de uma alta literatura.

Outra coisa que disse, que de fato vale o esclarecimento, foi sobre a afirmação de Antonio Candido: “A nossa literatura é galho secundário da portuguesa”. Mais abaixo, o autor afirma que “nossa literatura é pobre e fraca”.  Vale a pena registrar que tais palavras foram proferidas em plena década de 50, período em que Clarice Lispector e Guimarães Rosa estavam produzindo grandíssimas obras de arte.

O que leva um autor na década de 50 a afirmar que a nossa literatura não é grandes coisas perto da européia? O que de fato carateriza este autores como inferiores, por exemplo, a Dostoyevsky? Com que precisão se pode afirmar que não estamos diante de uma grande obra literária quando se lê “Grande Sertão: Veredas”, por exemplo?

Existe, me parece, muita cobrança pelo novo na escrita latino-americana. Mas não se trata de um novo totalmente novo. Trata-se de um novo articulado ao pensamento europeu (Candido afirma que um inglês, um russo, um alemão, um  espanhol, pode degustar apenas a literatura de seu país sem a necessidade de buscar em outras fontes a fruição estética).

Como forma de oposição à tese de Candido, trazemos aqui o pensamento de Silviano Santiago[1], que nos chama a atenção para a escrita latino-americana. Para ele, o escritor daqui só trabalha a partir do que já foi escrito: “o escritor latino-americano brinca com os signos de um outro escritor, de uma outra obra. As palavras do outro tem a particularidade de se apresentarem como objetos que fascinam seus olhos, seus dedos, e a escritura do texto segundo é em parte a história uma experiência sensual com o signo estrangeiro”.

É exatamente na assimilação do legado estrangeiro, no ritual antropofágico de devorar o forte, que a literatura brasileira se constitui. É em sermos segundo, isto é, por produzirmos a partir de, que nossa arte possui valores e sabores diversos: “o escritor latino-americano é o devorador de livros de que os contos de Borges nos falam com insistência. Lê o tempo todo e publica de vez em quando. O conhecimento não chega nunca a enferrujar os delicados e secretos mecanismos da criação; pelo contrário, estimulam seu projeto criador, pois é o princípio organizador da produção do texto”.[2]                                   

Mais ou menos assim que eu queria ter falado ontem. Quem quiser conferir, vai lá no podcast do site www.programaviceverso.com.br

No mais, agradeço ao povo do programa pelo convite: as músicas e as conversas foram ótimas. Quero mais!

É isso.
Moisés N.


[1] Santiago, Silviano. “O entre-lugar do discurso latino-americano. In: Literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva. 1978. p. 11-28.

[2] Idem. p. 27

No ar a REVISTA GRACIANO Nº 4 – Bora conferir!!!

A revista Graciano deste mês está uma delícia!

O tradicional Chá das Sete aconteceu com o escritor Adilson Vilaça, mineiro há muito tempo estabelecido em Vitória, autor de mais de 40 livros. Escritor já bastante consagrado, Vilaça foi lá no CEMUNI V ser sabatinado pelos mais de 15 cronópios que fazem parte da Revista. O resultado está divino.

Além disso tem uma entrevista com dois grandes poetas contemporâneos: Wladimir Cazé, pernambucano que atualmente reside em Vitória, e Alexandre Moraes que, além de poeta, ensaísta, teórico, professor, é meu orientador no Mestrado.

A Valise está recheada. Parece que os cronópios sofreram um empurrão daqueles, pois são muitos os textos na seção desta vez.

Além do mais, a integração com outros projetos do PRCJ fluíram pra caramba: Luara Monteiro e o núcleo de criação FOI À FEIRA fazem parte desta edição.

Nada mais a dizer. É preciso visitar e conferir. Portanto, o link tá aqui, oh: